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DESCAMINHOS

Em viagem para o sul, sou assaltada por um impulso e entro em um atalho. Depois de tantos anos, perdida e navegando no instinto, me encontro buscando as terras onde passava férias quando criança.

 

"Em busca da distante inocência", diria o poeta Mario Quintana.

 

O mundo está virado de pernas para o ar, mas aquele campo continuava exatamente como eu lembrava. Os mesmos cavalos,

as mesmas ovelhas?

Nenhum sinal das pessoas que vivíam por ali, mas reconheço os mesmos sorrisos acolhedores, o poço de beber água no verão, as velhas casas ainda no mesmo lugar, e ainda perfumadas pelos jasmineiros.

 

O Waze insiste em um caminho diferente daquele que eu tinha na cabeça. Com o instinto cada vez mais vendido aos chips, confio e entro à direita. A paisagem muda drasticamente - é a mesma cidade, mas parece o avesso do que ficou para trás. A seta aponta para a frente, mas a avenida se transformou em uma rua esburacada e cada vez mais estreita.

No bar da esquina, pessoas olham curiosas para o carro importado.

Pergunto como faço para voltar para a avenida. Ninguém parece disposto a ajudar, apenas gestos vagos que apontam para direções diferentes.

 

Em um flash, revejo cenas de “A Fogueira das Vaidades”, onde Sherman McCoy, um yuppie de Wall Street, vai buscar a amante no aeroporto e entra por engano no Bronx. Atropelam um negro e entram em pânico. O mundo civilizado e organizado de Manhattan está logo ali, mas nunca esteve tão distante.

Na quebrada onde me encontro, a Zona Sul do Rio deve estar do outro lado dos barracos mal ajambrados, de onde crianças descalças saem correndo, brincando de brincar. Mas a Zona Sul não é menos perigosa.

 

 

Os campos por onde, pela primeira vez, andei a cavalo, ainda oferecem o mesmo cheiro de terra molhada. Tento lembrar o nome do petiço que um dia me derrubou na mesma estrada de terra por onde o carro roda lentamente. Os altos eucaliptos me devolvem lembranças esquecidas. Já estive aqui...

 

 

As coisas ao meu redor reduzem meu ritmo. Aos poucos, se desmancha a pressa de chegar que me acompanhava na rodovia a caminho de um compromisso urgente. Qual seria?

Blank. No phone. No internet connection.

Não faz falta nenhuma.

 

Viro para a esquerda, para a direita, e na tela o reloginho avisa…

Recalculando. Verifico o travamento das portas enquanto um gota de suor desce pelo pescoço e “posts” de amigos dos amigos de amigos flutuam em minha cabeça com histórias de terror. Mas o culpado é absolvido, sob a alegação de que algumas variantes, nenhum algoritimo pode prever.

 

Há alguns meses a história de um amigo mais próximo quebrou a distância segura dos amigos de segundo e terceito grau. Confiou no chip e o aplicativo o levou diretamente para uma encruzilhada quase fatal. Levou um tiro a queima roupa. Escapou por milagre.

 

Então ouço o som de um guincho de metal, como o lento girar de um velho catavento. Delírio ou minha imaginação me faz ouvir o

catavento da fazenda, arrancado do alto da torre por uma ventania, quando eu tinha 12 anos?

Então outra pergunta:

Como lembrará meu amigo o som daquele tiro dentro de alguns anos?

Talvez recite baixinho as palavras revoltadas do poeta:

 

"Da vez primeira em que me assassinaram,

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, a cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha.

(...)

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca

Não haverão de arrancar a luz sagrada!".

 

 

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